Expectativas silenciosas.

segunda-feira, 8 de junho de 2026 · Temas: , ,

Apesar da minha predileção por trabalhar com os mais novos e de já não lecionar no secundário regular há alguns anos, sinto a necessidade de ensinar algo novo, num outro patamar, e que não seja exclusivamente geográfico. Por isso, talvez assuma uma turma de secundário. Veremos.



Esta vontade surge, em primeiro lugar, porque o mundo da Inteligência Artificial (IA), que anda um pouco perdido e sem rumo nas escolas dos ensinos básico e secundário, assusta-me e fascina-me em igual medida; no entanto, quero enfrentá-lo e ensinar a trabalhar nele. Na edição desta semana do semanário Expresso (6 de junho), li uma entrevista de Maria Kelo, dirigente da Associação Europeia de Universidades, bastante elucidativa sobre o panorama do ensino académico perante a IA. Entre muitas constatações, afirma que muitos jovens já não conseguem ler um texto longo devido às redes sociais e que, com a IA, existe o risco de se tornarem cognitivamente preguiçosos e de abdicarem da criatividade.

Ora, a minha primeira motivação passa precisamente por contrariar isso: ensinar a usar as ferramentas de IA que, se forem bem aplicadas, podem, pelo contrário, potenciar a criatividade e a cognição. Arrisco mesmo dizer que há toda uma nova Geografia por descobrir através do seu uso.

A isto junta-se uma segunda motivação. Durante a azáfama dos Jardins do Diálogo, impressionaram-me os medos dos jovens que estão na transição para a vida adulta. São receios não devidamente trabalhados nas inúmeras palestras sobre escolhas de cursos, segurança na Internet ou questões ligadas à saúde, entre outros assuntos.

Creio que falta uma abordagem que dilua a pressão social e as expectativas silenciosas dos próprios jovens, e sobretudo de quem os rodeia, sobre a escolha de uma área de estudos «com saída» e a imposição de um calendário tradicional para a vida adulta. Esta situação agrava-se num meio pequeno como a Lixa, onde todos se conhecem e o peso da ideia de que "nem todos podem ser doutores" é ainda mais palpável. Na verdade, notei nestes jovens uma falta de alegria e de prazer em aprender, e quero ajudar.

Teatro final.

sábado, 6 de junho de 2026 · Temas: , ,

Este meu blogue tem como prioridade dar destaque às atividades dos alunos. É de cariz eminentemente geográfico, certo, mas sobretudo pedagógico, e no seu centro estão os protagonistas da escola onde, entre muitas coisas, ensino Geografia, mas faço muito mais.

Uma dessas coisas que também ensino há muitos anos é teatro. Não possuo formação específica, não é do tipo que muita gente protagoniza na sala, mas é o suficiente para os fazer subir ao palco de um auditório e transformar medos em vitórias de confiança. Na verdade, são os próprios alunos que agarram o desafio, não obstante o temor de enfrentar uma plateia de olhos postos neles, perscrutando todos os seus gestos. E testemunho esta atitude singular de agarrar o medo há anos, como se fosse importante desafiá-lo.

Talvez porque percebam, mesmo de forma instintiva, que ultrapassar esse nervosismo naquele auditório é o primeiro treino para ganharem voz no mundo. Quando o espetáculo termina, levam consigo muito mais do que o alívio ou os aplausos; saem de lá com a prova prática de que são capazes de enfrentar os palcos reais e exigentes que a vida lhes reserva fora da escola.

Classificações do Peddy Paper IV.

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Fiz finalmente as contas do Peddy Paper: Perdidos na Lixa IV, e o resultado é um enorme empate. Ou seja, das seis equipas participantes, cinco obtiveram exatamente a mesma pontuação - 6300 pontos - e a segunda classificada, os Pavões Tímidos, ficou-se pelos 6100 pontos por se ter esquecido de realizar uma das "missões" propostas no Goosechase.

Assim sendo, o fabuloso prémio que eu estava a pensar atribuir à equipa vencedora, com o alto patrocínio do "chinês" da Lixa, vai ser sorteado. As regras, escritas algures, previam que, em caso de empate, a equipa com a média de idades mais baixa vencesse. No entanto, confesso que não me apetece ter uma trabalheira tamanha, e a ideia do sorteio até anima mais a cerimónia de entrega de prémios, que irá acontecer na próxima quarta-feira pela manhã.

Não obstante os estranhos resultados, haverá prémios para todos, inclusivamente para a segunda classificada, sendo que cada equipa chamada ao palco terá de fazer um discurso a agradecer à organização.

Por último, para os que mais desconfiarem das minhas contas e dos resultados, ou das maroscas das outras equipas, podem reclamar para o seguinte email: naoteadiantadenada@123.pt, que a organização terá tudo em boa conta e fará justiça. Não se preocupem! De qualquer forma, fica aqui uma tabela comprovativa das submissões exigidas em cada uma das missões, o respetivo elemento da equipa que as realizou e a pontuação obtida em cada uma.

Flower Party: uma loucura de verão.

sábado, 30 de maio de 2026 · Temas: ,

O meu ano de escolaridade favorito para lecionar é o 7.º. Gosto bastante dos meus alunos mais velhos, mas são os mais pequenos que mais me motivam, porque acham graça às minhas piadas e alinham, com toda a naturalidade do mundo, nas minhas iniciativas na escola. Se, por artes mágicas, os pudesse congelar naquela idade e avançar com eles até ao fim do secundário, não os largava e seria um professor feliz.



Infelizmente, crescem, perdem um certo encanto e, acima de tudo, ganham aquela autonomia embrionária que os leva a não alinhar em nada ou a achar graça àquilo que os adultos fazem, mesmo que isso não seja verdade, só porque sim. Daí o meu empenho nestas atividades, mais apropriadas a quem tem 12 anos, tal como esta Flower Party que celebrou o final de um longo ano letivo.

E para garantir que aproveitavam cada minuto dessa fase de pura brincadeira, as celebrações começaram bem cedo. Quando todas as turmas ainda se dirigiam para a primeira aula da manhã, as três turmas do sétimo ano tiravam fotografias de grupo no átrio principal da escola, antes de partirem para um peddy paper nas ruas da Lixa. De regresso à escola, e com novas equipas bem definidas, os protagonistas da festa dedicaram-se a retocar as bancas de venda de óculos e colares, os jogos desportivos, os balões de água, o karaoke, as batatas fritas, os crepes, os cachorros, as pinturas faciais e até uma bilheteira que fez circular a moeda oficial da festa: o "beuro".

Marquei a data da sua realização há meses, longe de saber que coincidiria com o dia mais quente do ano até então. Foi ótimo, mesmo que o touro mecânico tivesse de parar uma série de vezes para repousar e os mocktails se tenham esgotado rapidamente. Não obstante, este calor ajudou a não dar descanso aos crocodilos e à lagosta insufláveis, que deslizaram a tarde toda numa pista de lona, ao sabor de detergente da loiça com aroma a limão e muita água da mangueira!

A par de toda esta agitação, a professora Joana, que me ajudou a organizar o evento, com o seu jeito discreto, contribuiu para colorir dois pilares do edifício com pinturas ligadas à temática da festa: os anos 70 e toda a simbologia hippie.

Para o próximo ano, se os alunos do sétimo não crescerem demasiado rápido, talvez haja mais eventos assim. Arrisco-me a dizer que já não vão deslizar tanto na pista dos crocodilos nem decorar, com o afinco que mostraram nas vésperas, os cartazes que ilustraram toda a festa. Veremos.

Estilo FlowerParty.

segunda-feira, 18 de maio de 2026 · Temas: , ,

A FlowerParty está a pouco mais de uma semana de distância e já te posso revelar, de fonte segura, algumas das surpresas que estão reservadas. Vais poder contar com alguns snacks, as incontornáveis pipocas, batatas fritas em pequenos pacotes, gelados e mocktails super inovadores.


Também vais poder adquirir, quase a preço de saldo, alguns acessórios: óculos e colares de flores, que dão "pinta" e não deixam ninguém indiferente. Ora, se por um lado é bom dar nas vistas, sobretudo numa festa, por outro, é bom passar despercebido ao castigo da equipa do balde de água, que estará pronta a entrar em ação sempre que percas num dos jogos da festa.

Já sabes que vamos ter um escorrega de água gigante (alimentado a mangueira e detergente da loiça) onde poderás escorregar às cavalitas de um crocodilo ou de uma lagosta; o preço da escorregadela varia conforme o bicho. A juntar à festa, terás a possibilidade de comprar meia dúzia de balões de água a preço de chuva, e de participar no tiro ao alvo e nos remates à baliza.

É já no dia 27 de maio, há previsão de calor, e és muito bem-vindo.

Programa da FlowerParty.

domingo, 19 de abril de 2026 · Temas: , ,

Bem sei que te contorces todos os dias de ansiedade ao contar os dias do calendário que faltam até à festa do ano! Mas está quase a chegar: é no dia 27 de maio e já temos o programa fechado. Como verificas, é diverso, temático e, durante a tarde, aberto a quem quiser participar. Terás à disposição divertimentos onde a água é fator preponderante, comida, bebidas e adereços a preços simbólicos. Até lá!




Desafia-te.

domingo, 12 de abril de 2026 · Temas: ,

Já deves ter ouvido falar da Flower Party, e sei bem o que te custa ter de usar umas roupas diferentes, adequadas ao tema da festa: os anos 70 e o movimento flower power. Mas vais ter de fazer um pequeno esforço e repensar o teu outfit, nem que seja para te sentires integrado. Pesquisa umas ideias no Google, procura umas camisas floridas, uns casacos de camurça ou até umas calças de veludo esquecidas lá por casa de um familiar, e desafia-te.

Flower Party.

segunda-feira, 6 de abril de 2026 · Temas: , ,

Apontem na agenda: no próximo dia 27 de maio, a acabar o ano letivo, várias das minhas turmas vão dar uma festa baseada na estética dos anos 70! É verdade.




De manhã, enquanto se realiza a 4.ª edição do Perdidos n'Lixa para os organizadores, podes comparecer nos intervalos no espaço dos Girassóis, e fazer a tua própria coroa de flores e / ou ajudar na nova pintura das colunas semiabandonadas, com padrões e motivos da época. Mais, se quiseres, também podes alinhar no piquenicão que faremos naquele pseudorrelvado paralelo ao ginásio. Basta trazeres comida, boa disposição, comida para partilhar (que é a filosofia do evento), uma toalha de piquenique e um guarda-sol.

À tarde teremos música temática e dançável, coroas de flores, facepainting e jogos de água! Ah! Quem comparecer terá de se vestir, mais ou menos, de acordo com o tema... E não vale aldrabar!

Coisas do Diabo #5.

terça-feira, 24 de março de 2026 · Temas: ,

Neste 5.º episódio do diabo, resolvi juntar uma série de reportagens feitas por vários grupos de trabalho, pois o tema era comum: os problemas da nossa escola. Desde WCs desequipados, paredes a descascar, tetos a meter água e até portas propositadamente fechadas e sem puxador, não falta matéria-prima de reportagem para consolar o nosso amigo de chifres e cauda pontiaguda! Vejam.

Coisas do Diabo #3.

domingo, 15 de março de 2026 · Temas: , ,

Neste novo episódio, percebemos como quatro amigos veem o mundo escolar. Começam por queixar-se do excesso de trabalhos de Geografia e dos testes de Matemática. Ou seja, palpita-me que as pautas da Páscoa vão ser o diabo e a redenção só surgirá lá para finais de maio ou início de junho.

Mas não se ficam pelas questões académicas. Em jeito de passeio-reportagem pela escola, descobrem lixo deixado no sítio errado, obstáculos a meio do corredor e até portas fechadas, o que até parece uma figura de estilo, atendendo a que se trata de uma escola!

A Páscoa e os gatos.

sábado, 14 de março de 2026 · Temas: , ,

Tive uma tarde livre esta semana porque uma das minhas turmas foi para o Porto e, em vez de me enfiar num gabinete ou mergulhar na papelada, experimentei coisas novas. Por outras palavras, fazer mais do mesmo não me assenta, mesmo que o tenha de fazer mais tarde.

Assim, peguei na máquina de corte a laser que tenho na escola e, com a ajuda de uns fabulosos voluntários que se foram juntando, fizemos experiências e conseguimos cortar em vinil dúzias de ovos coloridos e uma série de gatos.

Ora, a questão que se levantou durante a instalação foi: porquê os gatos e não os coelhos, as borboletas ou até as florezinhas? A resposta é simples: porque isso é piroso! O gato, por outro lado, e mesmo adocicado como aqueles que colamos nas montras, não deixa de ser um gato. Um gato nunca é cor-de-rosa (arggh!), verde-alface ou azul-celeste. Na verdade, um gato não se deixa domesticar verdadeiramente; eles só coabitam connosco porque lhes damos comida. Caso contrário, na primeira oportunidade, procuram outras paragens. E mesmo quando se sujeitam a festinhas, acreditem que é graxa.

Ou seja, admiro aquela personalidade autónoma, sem paralelo no mundo dos animais domésticos. Nem os lagartos, que passam horas a olhar em frente, são tão indiferentes às mariquices dos nossos mimos.

O dilema do sonho e a utopia.

segunda-feira, 9 de março de 2026 · Temas: , ,

No sábado passado, marquei presença num convívio cujo cartaz o anunciava como uma Oficina de Papel e Direitos Humanos. O encontro teve lugar em Vilar, um recanto esquecido do concelho que, a par da sua antiga escola primária, jaz imerso numa placidez apenas rompida por estas iniciativas promovidas pelo Gritah, ou quando decido por lá caminhar com alunos.

Toda a jornada serviu também de palco para a feliz revelação de que o propósito fundador daquela ONG, erigida por alguns dos meus antigos alunos, se encontra, por fim, em marcha. Partilharam os recentes desenvolvimentos que viabilizam a construção de uma escola na Guiné-Bissau. Trata-se de um sonho tornado realidade através de anos de esforço incessante dos seus elementos e de um acreditar imenso na utopia.

Ora, é precisamente aqui que a questão do sonho e da utopia faz todo o sentido. Enquanto o sonho é, muitas vezes, algo solitário e que guardamos só para nós, a utopia funciona como um horizonte que nos puxa para a frente. Não é uma fuga à realidade, mas sim uma esperança posta na prática. É a recusa em aceitar o mundo apenas como ele é, e a vontade de o transformar naquilo que deveria ser.

Ao avançarem com a construção desta escola, estes jovens mostram que a utopia serve mesmo para isso: para nos fazer caminhar. Aquilo que parecia apenas um ideal vai agora transformar-se em tijolos, salas e cadernos em África. No fundo, espelho-me, é a teoria levada à prática: quando o sonho sai da imaginação e se junta à vontade de agir, o impossível ganha, finalmente, o seu lugar no mundo real.

Saímos com chuva, voltamos com sol.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026 · Temas: , ,

Saímos com chuva, voltámos com sol é a metáfora deste dia preenchido pela visita de estudo, que tive o prazer de acompanhar. Até porque é sempre muito confortável participar nas visitas de estudo em que não sou responsável pela organização, limitando-me ao papel de vigilante e acompanhante.



Com a energia típica do oitavo ano, explorámos o monumental Mosteiro de Tibães e, a escassos quilómetros dali, o Museu dos Biscainhos. Ambos os locais serviram de excelente cenário para que os alunos pudessem observar de perto a enorme expressão e riqueza que o estilo barroco assumiu na cidade de Braga.

Direto800 #1: Megatleta.

domingo, 8 de fevereiro de 2026 · Temas: ,

Se és daqueles que gostam de ver desporto de qualidade, marca na agenda: na próxima quarta-feira, dia 11, a promissora equipa do Canal800 irá transmitir em direto, a partir das 14h00, a prova Megatleta, que irá decorrer no ginásio da ESL.



Temos duas equipas de reportagem no terreno, com perguntas difíceis preparadas para todos os participantes e assistência, comentários de estúdio e até um drone a captar imagens inéditas dos céus do ginásio. A transmissão pode ser vista aqui no Geopalavras ou diretamente no Canal800. Por isso, adianta os trabalhos de casa, adia a ida à esteticista, compra pipocas e aqueles frascos de concentrado de laranja para diluir em 5 litros de água, porque vais passar um bom bocado agarrado ao ecrã!

E a chuva surgiu.

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026 · Temas: ,

A minha atual escola conheceu três diretores. O primeiro, quando aquela designação ainda não existia, abriu a escola, plantou árvores e, pelo que me relatam, impunha ordem e respeito. O segundo perpetuou-se durante mais de duas décadas no poder e herdou os hábitos de disciplina do seu antecessor, que depressa se esvaneceram por não terem a mesma personalidade. Era alguém que se blindava numa capa de medos e raramente tomava atitudes corajosas, por receio de fazer perigar a imagem.



Foi de tal forma assim que muita gente, eu incluído, esperava que um novo mandato, o atual, surgisse com uma visão diferente, até porque há situações flagrantes que me custa entender não serem resolvidas.

De facto, melhorou-se a sala de professores, aprendeu-se a fechar portas (há uns anos já se tinha tentado, mas sem sucesso) e compraram-se uns vasos gigantes que tentam rivalizar com as plantas da secretaria ou dos corredores da direção onde o clima, artificialmente ameno, até permite plantar bananeiras. Mas falta algo mais importante: um espaço para os alunos.

Ainda não percebi onde está a ser criado o Espaço Gaming que há muitos anos é reivindicado por alunos, encarregados de educação e professores, para que os jovens tenham um lugar para se sentar (literalmente) nas horas livres do período de almoço e permitir aquele tão necessário convívio. Já aqui tinha escrito sobre o assunto em outubro passado, mas desconfio que os materiais do projeto do OPE vencedor do ano passado nunca venham a ser adquiridos e que o tal espaço, votado por mais de 250 alunos, não saia do papel.

Natal skills.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025 · Temas: , ,

Há uns anos, li e guardei na memória algumas passagens de um daqueles artigos de suplemento de fim de semana. O tema era o recrutamento e a seleção de profissionais nas mais diversas áreas. Confesso que perdi o rasto à sua origem, mas recordo-me bem de alguns exemplos, até porque os menciono com frequência nas aulas. Explico-me, por vezes em jeito de justificação para o que faço na escola, que as empresas aplicavam, no recrutamento, técnicas ousadas de seleção que se desligavam do mero currículo para observar reações, interações, o comportamento em equipa e as competências sociais.




Os exemplos eram curiosos: uma cadeia de lojas de roupa que punha os candidatos a dançar, procurando identificar aqueles que mais interagiam com os pares; ou bancos e empresas, à procura de gestores, que reuniam os candidatos para competir em escape rooms, com tudo o que esse contexto competitivo possa revelar.

Ora, há muito que percebi que, para um aluno com mais de uma dezena de disciplinas no ensino básico (ou mesmo no secundário) e currículos densos e desfasados da realidade, não basta ter boas notas e estudar para testes. É necessário mais. A realidade não precisa apenas de alunos que dominem fórmulas ou tenham uma enorme capacidade de memorização.

Para muitos dos meus colegas de profissão, algo que se desvie do manual, do teste ou de uma qualquer novidade na aula parece algo impossível. Seja pela perspetiva do ensino, seja pela desculpa de que os conteúdos são extensos (como se os alunos tivessem capacidade de absorver tanta coisa), ou pelo medo de fugir a critérios de avaliação que se centram, em 2025, numa média de testes. Ainda ninguém me conseguiu explicar como é que esses testes avaliam, devidamente, aquilo que o mundo do trabalho procura e que, se calhar, uma bela Caça às Prendas de Natal ajuda a desenvolver muito melhor.

Gnomos fanhosos.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025 · Temas: , ,

Há, por acaso, coisa mais divertida do que, no contexto certo, pormo-nos a jeito e brincar com a nossa própria figura? Quem é que não se diverte a declamar poemas sem conseguir articular os “rr” ou os “l”, a fingir-se gnomo por uns instantes, a cantar All I Want for Christmas Is You em pleno átrio da escola, ou a assumir, com convicção, o papel do burro do presépio?

Não é a primeira vez que falo deste assunto, porque ele importa. Importa sairmos de nós próprios, libertarmo-nos da pose, dessa coisa séria e engessada que tantas vezes confundimos com maturidade. Há algo de profundamente saudável, e até pedagógico, em criar momentos de divertimento, em rir e fazer rir. A vida, apesar das aparências, não tem de ser sempre solene. E, felizmente, nem deve.

Correio de Natal.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025 · Temas: , ,

Escrever ao Pai Natal, ou ao Menino, é um exercício de inocência próprio de quem ainda acredita em seres mágicos, distribuidores de prendas ao sabor das vontades, das modas e, não raras vezes, pouco merecidas. Um ritual que perpetua um certo folclore comercial, já entranhado em regiões do mundo onde nem sequer sabem distinguir as figuras do presépio, mas sabem, sem hesitar, o nome do barbudo, barrigudo e de barrete vermelho.



Ainda assim, confesso: continuo a acreditar em milagres e em seres alados. É verdade, e explico-me. Não passa uma semana sem que escreva naqueles arcaicos blocos de “memorandos”, uma relíquia do Ministério da Educação da década de 80 que, pelo menos na minha escola, continua a circular com uma vitalidade quase sobrenatural.

Normalmente peço coisas simples: que não mexam nas minhas coisas, que não alterem o sistema operativo dos computadores, esse que consegue bloquear uma inocente calculadora online, ou que substituam máquinas com 14 anos de idade que, com uma pontaria essa sim milagrosa, calham sempre às turmas do ensino básico.

Mas, entre aqueles maços, há vários, resiste um curioso arquivo de cópias em papel químico, sobreviventes dos originais, onde se lê, quase publicamente, que não sou o único crente. Há quem reclame do aquecimento, da chave, do barulho incessante nos corredores ou da falta de sabão nas casas de banho. Enfim, uma coleção de pedidos feitos em tom de desejo que, pelos vistos, não são atendidos. Talvez por nos portarmos mal. Ou talvez porque o milagre, por aqui, ainda esteja em lista de espera.

Pinheiros humanos.

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Um dos desafios que propus na Caça às Prendas de Natal deste ano letivo foi a construção de um pinheiro humano, formado e decorado exclusivamente pelos elementos de cada equipa. Ora, ao avaliar as fotografias, verdadeiros registos de um exercício profundo, quase circense, de equilíbrio, posso afirmar, sem hesitações, que estes são autênticos e belos eucaliptos de Natal, bem à portuguesa: improvisados, engenhosos e com aquela inconfundível arte da desenrasca que, no fim de contas, cumpre plenamente o seu propósito.



Uma instalação artística.

domingo, 7 de dezembro de 2025 · Temas: ,

Sobre o cenário que se encontra patente na escola há umas semanas, mesmo à entrada do seu espaço multiusos, já tinha feito uma abordagem científica. Referi, então, que a composição era tão rica, engenhosa e criativa, que merecia também ser vista de uma perspetiva artística e até esotérica. Sobre esta última, debruçar-me-ei daqui a uns dias; para já, fica o meu olhar artístico da "coisa".



Na verdade, o cenário de infiltração não é um problema desenrascado, é um gesto artístico involuntário, uma espécie de estética da sobrevivência, onde o quotidiano cria, sem querer, uma obra sobre resistência, adaptação e precariedade tornada forma (algo comum à minha escola).

É, assim, uma escultura acidental sobre o tema das soluções e dos recursos. Uma manifestação clara de engenho humano, perante tanto meter de água.