Sliding shores.

quarta-feira, 30 de setembro de 2026 · Temas:

Gostei muito desta ferramenta, Sliding Shores, que nos mostra, à escala do globo e, em particular, nas zonas costeiras, as consequências da subida ou da descida do nível do mar. Permite visualizar tanto os efeitos do degelo polar como os de um cenário menos provável no atual contexto climático, o aumento das calotes polares e a sua extensão a latitudes mais baixas, com a consequente descida do nível do mar.

Trata-se de um projeto não comercial, uma daquelas carolices que tanto enriquecem a Internet, da autoria de Richard Franklin. O mérito da ferramenta é múltiplo, pois apresenta vários cenários extremos e estima as suas consequências na deslocação das populações. Assim, mais do que satisfazer a curiosidade geográfica, este globo sensibiliza quem o utiliza para os riscos associados às alterações climáticas.

Um olhar diferente.

terça-feira, 29 de setembro de 2026 · Temas: ,

É meu hábito, há já vários anos, nestes últimos espasmos do verão, tirar os meus alunos do sétimo ano da sala e levá-los a desenhar paisagens a partir de um dos vários recreios da escola. Faz-lhes bem, pois soltam-se e mostram-se como são. E isso não belisca em nada a sua aprendizagem. Pelo contrário, abre-lhe caminho.

É o primeiro ato de uma disciplina que encontra nas paisagens o seu objeto de estudo. Paisagens que devemos observar com um olhar atento e curioso, capaz de as interpretar, descobrindo as relações entre os elementos naturais e a ação humana, as marcas do tempo e os sinais de transformação. O que ali está, porque está ali e como se relaciona com o que o rodeia, é também destas perguntas que se faz a Geografia.

A medição da longitude.

quarta-feira, 23 de setembro de 2026 · Temas:

Não é a primeira vez que aqui afirmo adorar aquela Geografia de base que se leciona no sétimo ano de escolaridade em Portugal. Gosto da sua utilidade prática, que convida a uma geografia em ação, tão recomendável nestas idades. Ora, a determinação da localização absoluta de um lugar, mediante a sua latitude e longitude, é precisamente um desses conteúdos que permitem aos alunos brincar «à geografia» e aprender sem pesar.

Quando ensino estes dois conceitos, procuro explorar o seu significado astronómico e a história da sua construção, ciente da dificuldade que o segundo coloca aos alunos: compreender como é possível determinar a longitude de um lugar comparando dois relógios que assinalam horas diferentes. Para o explicar, recorro a figuras, planisférios e até a relógios de ponteiros, numa abordagem mais clássica. Procuro, assim, ilustrar o problema que John Harrison ajudou a resolver no século XVIII: embora o conceito de longitude fosse conhecido há muito, faltava um relógio capaz de conservar a hora de referência com suficiente precisão durante as viagens marítimas.

Duas formas de ver o mundo.

terça-feira, 8 de setembro de 2026 · Temas:

A projeção de Mercator foi criada em 1569, há mais de 450 anos, e continua presente em muitos manuais escolares de Geografia, História e outras áreas que recorrem a mapas-múndi. Embora tenha sido concebida para facilitar a navegação marítima, distorce progressivamente as áreas à medida que nos afastamos do equador. A sua utilização generalizada acabou também por produzir um efeito político e simbólico, pois os territórios situados nas latitudes médias e altas do hemisfério norte surgem muito maiores do que são na realidade, quando comparados com as regiões tropicais.

É neste contexto que ganha pertinência a projeção Equal Earth, desenvolvida em 2018 por Bojan Šavrič, Bernhard Jenny e Tom Patterson. Trata-se de uma projeção equivalente, isto é, conserva a proporção relativa das áreas dos países e continentes. Contrasta, assim, com a projeção de Mercator, na qual a ampliação das superfícies aumenta progressivamente com a latitude.

Neste sentido, em setembro de 2026, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou uma resolução que encoraja a utilização de projeções equivalentes nos mapas-múndi, mencionando expressamente a Equal Earth. Embora não seja vinculativa nem proíba o uso da projeção de Mercator, a resolução poderá influenciar a cartografia utilizada no ensino, nos meios de comunicação social e nas plataformas digitais.

Julho e agosto: um verão com duas versões.

sábado, 5 de setembro de 2026 · Temas:

Os meses de julho e agosto de 2026 decorreram num contexto climatológico global marcado pelo fortalecimento do fenómeno El Niño, capaz de perturbar os padrões de temperatura e de precipitação em várias regiões do planeta. Na Europa, este período ficou assinalado por sucessivos episódios de calor intenso, alguns dos quais atingiram regiões pouco habituadas à sua frequência ou severidade.

No Noroeste de Portugal Continental, onde se localiza a estação meteorológica de Macieira, uma freguesia do concelho de Lousada, os dados mostram-nos um verão com duas versões muito distintas: uma extremamente quente, associada à presença de massas de ar muito quente e a episódios de calor intenso; outra bastante mais fresca, relacionada com a entrada de ar marítimo e com a passagem de sistemas frontais.


Nova cúpula de calor.

quinta-feira, 3 de setembro de 2026 · Temas:

Depois de um agosto fresco e chuvoso, o início de setembro traz à bacia mediterrânica europeia mais uma cúpula de calor. Esta é a terceira do ano e prevê-se que provoque temperaturas máximas entre os 35 e os 40º célsius.

Trata-se de uma massa de ar muito quente, proveniente do Norte de África, que ficará retida sob um sistema persistente de altas pressões. A subsidência do ar, como já explicamos anteriormente a propósito deste fenómeno, provoca a sua compressão e o seu aquecimento adiabático, reforçando as temperaturas já elevadas.

O eclipse a partir da escola.

terça-feira, 11 de agosto de 2026 · Temas: ,

Queridos alunos, embora pareça que me contradigo, afirmo aqui que há utilidade no uso de ferramentas de Inteligência Artificial, desde que estas não substituam a nossa imaginação nem nos transformem numa espécie de carrapato, dependente de uma ferramenta que faz tudo por nós, a qualquer hora.

Não obstante, na simulação de factos e fenómenos científicos, a Inteligência Artificial pode ser extremamente útil e é aí que verdadeiramente brilha. Para fazer o vídeo que simula o verdadeiro eclipse, usei o GPT na sua versão mais avançada. Submeti uma fotografia que tinha tirado com um drone há algumas semanas, indiquei a sua orientação geográfica e defini as condições do fenómeno. O resultado parece quase real.


Portanto, se não tens um par de óculos próprios para observar eclipses, nem te atrevas a olhar diretamente para o Sol. Vê o eclipse pela televisão ou utiliza um método de projeção: de costas para o Sol, deixa a luz solar passar por um pequeno orifício e projeta a imagem numa superfície clara, como uma folha de papel ou o chão. Nunca olhes para o Sol através do orifício. A curiosidade científica é para manter. A visão também.

Livros, jornais e revistas à tua espera.

sábado, 1 de agosto de 2026 · Temas: ,

Tenho por hábito diário espreitar as primeiras páginas dos jornais e revistas. É um hábito antigo, que remonta à minha adolescência, quando o meu pai, que trabalhava no Jornal de Notícias, nos trazia todos os dias os principais títulos da imprensa diária de então, o JN, o Diário de Notícias, O Jogo, e esporadicamente o Público e o Expresso. Detenho-me nesses tempos, em que os estímulos digitais não eram uma opção sólida, e a leitura surgia como uma excelente solução de ocupação. Para a idade, e naqueles tempos, saber falar de política nacional e internacional, ler as críticas a novos álbuns em CD e às estreias cinematográficas era um luxo que poucos podiam ter.


Hoje mantenho o mesmo gosto, mas agora sem aquele vagar de quando as responsabilidades quotidianas da vida não existiam. É por isso que no verão quero ler tudo o que posso e que fui guardando para esta altura. Por ter este gosto, recomendo um truque que, na verdade, é um segredo bem guardado, a adesão ao Press Reader via Bibliotecas Municipais.

O Press Reader é uma espécie de Spotify da imprensa nacional e mundial. Com o registo de utilizador numa biblioteca municipal aderente, e eu fiz a minha adesão na rede de Bibliotecas do Porto, nos balcões da Biblioteca Almeida Garrett, nos jardins do Palácio de Cristal, e através de uma aplicação para Android ou Windows, temos acesso gratuito a mais de 7400 dos principais jornais e revistas do país e do mundo. Mas há mais. Simultaneamente, e com o registo no BiblioLed, podemos aceder ao empréstimo de livros em formato digital desde que estejam disponíveis para empréstimo, tal como se de um livro físico se tratasse. Portanto, não há desculpas para não largares os jogos e as tretas das redes sociais, e começares a ler frases com mais de cinco palavras sem erros ortográficos. Boas leituras.

O calor de leste.

quinta-feira, 16 de julho de 2026 · Temas: ,

A imaginação popular concebe o inferno com tons vermelhos, quente e cheio de caldeirões nos quais os pecadores são cozidos. Ora, não é necessário pecar para o experimentar, visto que ele nos visita com frequência através de algo chamado: cúpula de calor.

Este fenómeno já nos tinha visitado em finais de junho de 2025 e voltou a fazê-lo em finais de maio. Embora não tenha atingido os valores de temperatura da vaga de calor mais recente (entre 29 de junho e 6 de julho de 2026), confesso que suportei melhor esta última, embora tenha sido mais intensa e extrema.

A corrente de leste que a provocou trouxe consigo uma massa de ar de baixa humidade relativa, o que torna a tolerância ao calor mais suportável. O nosso corpo apenas consegue baixar a sua temperatura em ambientes quentes através da evaporação do suor. Durante uma cúpula de calor com elevada humidade relativa, o ar aproxima-se do ponto de saturação. Nessas condições, o suor não evapora, a pele retém o calor gerado pelo corpo e o índice de calor atinge níveis insuportáveis e potencialmente perigosos.

Por outro lado, numa vaga de calor mais seco, mesmo com temperaturas nominais superiores, a baixa humidade permite uma rápida e eficiente evaporação da transpiração, o que arrefece a pele e torna a situação fisicamente muito mais tolerável.

Colamos uns espanta-pássaros.

quarta-feira, 8 de julho de 2026 · Temas: , ,

Apesar do título, gosto, de uma maneira geral, de todos os pássaros. Dou-me bem com todos eles e cada um tem as suas manhas; vejamos: há "melros" a quem acho graça, pois são hábeis na arte de se esquivarem ao trabalho; quanto aos "pardais", juntam-se em bandos e têm muita dificuldade em entender-se; também lido com uma data de "gralhas" que falam de tudo e mais alguma coisa, e quase nada dizem de jeito; conheço ainda os "rouxinóis", que são uma delícia quando fazem e falam, e as "rolas", que voam sempre demasiadamente baixinho.

Não obstante, nutro um instinto de proteção por todos, carinho até, que necessita de ser exercido, caso contrário degrada-se. Falo tanto dos meus pássaros como dos verdadeiros, que sabem voar logo à nascença. E, como mais ninguém parece preocupar-se com eles, pedi ajuda a dois "passarões" para me ajudarem a colar uns espanta-pássaros nas janelas da escola viradas a norte. Ao contrário das janelas orientadas para os restantes pontos cardeais, nas setentrionais não existem palas metálicas que filtram a luz solar, logo não sinalizam o obstáculo aos pássaros, que acabam por sucumbir à força do impacto. É um espetáculo macabro a que ninguém gosta de assistir e que já se arrastava há demasiado tempo na escola.

4 de julho: 42,2 ºC.

terça-feira, 7 de julho de 2026 · Temas: ,

Esta última vaga de calor que o território continental enfrentou impressiona pelos valores de temperatura atingidos: máximos, mínimos e de sensação térmica, mas também pela sua duração. As ondas de calor são cada vez mais frequentes, já todos o sentimos na pele, mas a sua duração reduzia-se a 3 ou 4 dias. Desta vez durou 7 dias, com temperaturas mínimas muito altas, incapazes de recuperar algum conforto térmico durante a noite.

O formato deste calor não foi inédito, como já escrevi aqui, mas a força e a intensidade sim. Tratou-se de um episódio típico do nosso verão, quando o anticiclone dos Açores se posiciona a noroeste da Península e se estende em crista ao longo do Golfo da Biscaia, bloqueando sistemas frontais atlânticos e provocando uma circulação de ar seco de leste e quente, que fez disparar os termómetros nas regiões litorais.

Olhando para os valores, destaque-se a temperatura máxima, que atingiu o valor extremo de 42.2 ℃ no dia 4 de julho; a sensação térmica, que acompanhou esta subida e chegou aos 40.2 ℃; a temperatura mínima não desceu dos 25.6 ℃ nessa mesma noite e os registos noturnos mantiveram-se acima dos 20 ℃ durante quatro dias seguidos.

A temperatura e a chuva de maio e junho.

sexta-feira, 3 de julho de 2026 · Temas:

Atrasei-me na análise dos dados da minha estação meteorológica no início de junho e resolvi fazer uma análise conjunta destes dois últimos meses.

O mês de maio mostrou inicialmente temperaturas com médias baixas, a rondar os 12 ºC e os 14 ºC. O final do mês assistiu a um aumento brusco da temperatura (dia 20), que culminou no dia 27, com 37,5 ºC de valor máximo e um valor médio de 26,6 ºC, sendo o dia mais quente do mês e do ano, até então.

Ao contrário de maio, que foi um mês de extremos e transição, junho mostrou uma regularidade muito maior no que toca ao tempo quente. As temperaturas médias fixaram-se quase sempre acima dos 20 ºC, e as máximas ultrapassaram frequentemente os 30 ºC, caracterizando a entrada plena na época estival. A temperatura máxima ocorreu no dia 12, com um valor de 38,2 ºC e uma média de 28,7 ºC.

Destaque ainda para os elevados valores de amplitude térmica registados em maio, nos dias cujas máximas rondaram os 30 ºC. Foram sintoma de grandes arrefecimentos noturnos, resultado da forte radiação solar e da baixa humidade do ar.

No que à precipitação diz respeito, verificou-se uma assimetria extrema, sendo flagrante o contraste pluviométrico entre os dois meses. Maio acumulou 78,0 mm de chuva, concentrada sobretudo na primeira quinzena, com o dia 9 a ser o mais fustigado, registando 20,5 mm. Em contrapartida, junho foi um mês extremamente seco, totalizando apenas 13,2 mm, em que mais de metade desse valor caiu num único episódio, no dia 25.

O calor que conhecemos.

segunda-feira, 29 de junho de 2026 · Temas: ,

Os vários modelos de previsão apontam para uma subida das temperaturas máxima e mínima ao longo da semana. Trata-se de um tipo de calor com baixa humidade, empurrado por vento vindo de leste, que nos visita com frequência durante o verão. Esta corrente deve-se ao posicionamento do anticiclone dos Açores, cujo campo de pressão se estende ao longo do Golfo da Biscaia.




O posicionamento daquela alta pressão, ao contrário daquilo que provocará no nosso território continental, permitirá a entrada de ar atlântico que aliviará a Europa Ocidental da onda de calor que a afetava há cerca de duas semanas. Não obstante os valores, este calor que nos afetará nos próximos dias é mais tolerável, dada a diminuta humidade relativa.

Os Jardins do Diálogo e a força da geração atual.

domingo, 28 de junho de 2026 · Temas: ,

Há dois motivos sobre os quais eu sempre tive uma enorme dificuldade de escrever: o primeiro sou eu mesmo, o segundo são as pessoas que admiro. Isto porque há sempre uma carga imensa de emoção no ato da escrita; as palavras tornam-se demasiado pensadas, ganham um peso próprio e custam a sair porque parecem carregar o peso dos nossos sentimentos. Por isso, decidi que este exercício não seria não seria um exercício solitário. Este é um artigo escrito a duas mãos, fruto de uma partilha sincera entre mim e a professora Maria, com o intuito de dar forma e voz a uma vivência comum.

O verdadeiro motivo e a grande inspiração deste texto são os jovens que constituem o GRITAH (associação de solidariedade). A palavra "jovem" assume aqui um significado imenso e transformador, que ultrapassa qualquer definição formal e que se tornou no eixo e elo de união de todo o projeto, desde os primeiros esboços até ao reflexo prático na nossa escola.


Boas férias!

quarta-feira, 24 de junho de 2026 · Temas: ,

Colei esta frase na vitrina da Estação Gráfica. Falta-lhe um 'E' e um acento, e o reflexo de quem se coloca de frente torna a sua leitura difícil. Sem querer, o modo espelhado como se apresenta metaforiza a sua mensagem, que nos coloca no centro do frenesim do divertimento. Mostramos mais o que fazemos, vivemos na ânsia de o fazer, do que propriamente sentimos o que fazemos.


Ora, o verão não tem de ser extravagante para recuperarmos o fôlego. Podemos encontrar um repouso muito mais profundo e gratificante na simplicidade e na recusa das obrigações sociais da época. Na verdade, o poder de decidir como queremos realmente descansar está nas nossas mãos. Boas férias!

Reportagem florida.

quarta-feira, 17 de junho de 2026 · Temas: ,

Se alinhaste na Flower Party do passado dia 27 de maio, não terás ficado indiferente à equipa de reportagem que percorreu as diversas atividades e barracas de comida do recinto. É verdade, o repórter fui eu mesmo, e tive a assessoria do Tomás, que no dia seguinte fez um rescaldo em direto da cantina, enquanto alguns dos protagonistas da festa saboreavam uma bela coxa de frango com batata frita ou, inclusivamente, se dedicavam a confecionar a própria comida (!).


A reportagem fez-me concluir que a água, sobretudo num dia de calor intenso, é um elemento fantástico e bem-vindo em qualquer festa, mesmo que o tema desta fosse o movimento hippie dos anos 60 e 70... A verdade é que, com uma lagosta e dois crocodilos, para não falar num touro mecânico, o tema acabou por se perder e a festa transformou-se numa Beach Party. Esperemos pela próxima.

Expectativas silenciosas.

segunda-feira, 8 de junho de 2026 · Temas: , ,

Apesar da minha predileção por trabalhar com os mais novos e de já não lecionar no secundário regular há alguns anos, sinto a necessidade de ensinar algo novo, num outro patamar, e que não seja exclusivamente geográfico. Por isso, talvez assuma uma turma de secundário. Veremos.



Esta vontade surge, em primeiro lugar, porque o mundo da Inteligência Artificial (IA), que anda um pouco perdido e sem rumo nas escolas dos ensinos básico e secundário, assusta-me e fascina-me em igual medida; no entanto, quero enfrentá-lo e ensinar a trabalhar nele. Na edição desta semana do semanário Expresso (6 de junho), li uma entrevista de Maria Kelo, dirigente da Associação Europeia de Universidades, bastante elucidativa sobre o panorama do ensino académico perante a IA. Entre muitas constatações, afirma que muitos jovens já não conseguem ler um texto longo devido às redes sociais e que, com a IA, existe o risco de se tornarem cognitivamente preguiçosos e de abdicarem da criatividade.

Ora, a minha primeira motivação passa precisamente por contrariar isso: ensinar a usar as ferramentas de IA que, se forem bem aplicadas, podem, pelo contrário, potenciar a criatividade e a cognição. Arrisco mesmo dizer que há toda uma nova Geografia por descobrir através do seu uso.

A isto junta-se uma segunda motivação. Durante a azáfama dos Jardins do Diálogo, impressionaram-me os medos dos jovens que estão na transição para a vida adulta. São receios não devidamente trabalhados nas inúmeras palestras sobre escolhas de cursos, segurança na Internet ou questões ligadas à saúde, entre outros assuntos.

Creio que falta uma abordagem que dilua a pressão social e as expectativas silenciosas dos próprios jovens, e sobretudo de quem os rodeia, sobre a escolha de uma área de estudos «com saída» e a imposição de um calendário tradicional para a vida adulta. Esta situação agrava-se num meio pequeno como a Lixa, onde todos se conhecem e o peso da ideia de que "nem todos podem ser doutores" é ainda mais palpável. Na verdade, notei nestes jovens uma falta de alegria e de prazer em aprender, e quero ajudar.

Completamente perdidos!

· Temas:

Já desconfiava há muito que a minha canalhinha do sétimo ano não regulava muito bem, mas dissipei as dúvidas com os vídeos, ou cromos, resultantes do Peddy Paper realizado nas ruas da Lixa, numa manhã de calor e alguma água. Não obstante terem dificuldades em entregar atempadamente os trabalhos de Geografia e Cidadania, verifico que são ótimos a mergulhar os pés em qualquer chafariz, lá se ajeitam a dançar de uma forma estrambólica, conseguem arranhar alguma coisa em inglês e até me pareceram poupados e gentis quando dedicaram uma flor aos professores acompanhantes. Estes, coitados, fizeram de tudo para os acompanhar, tentando não passar vergonhas nem acabar com a réstia de imagem que a nossa classe ainda possui na sociedade.

Portanto, perante tamanhos predicados, para o próximo ano letivo terei de mudar de estratégia nas aulas mais a sério. Já ando a estudar uns daqueles conjuntos de cubos que, depois de montados, permitem fazer uma figura, ou então encomendar uma caixa de lápis de cera e um livro didático sobre como dançar no TikTok em 10 lições.

Teatro final.

sábado, 6 de junho de 2026 · Temas: , ,

Este meu blogue tem como prioridade dar destaque às atividades dos alunos. É de cariz eminentemente geográfico, certo, mas sobretudo pedagógico, e no seu centro estão os protagonistas da escola onde, entre muitas coisas, ensino Geografia, mas faço muito mais.

Uma dessas coisas que também ensino há muitos anos é teatro. Não possuo formação específica, não é do tipo que muita gente protagoniza na sala, mas é o suficiente para os fazer subir ao palco de um auditório e transformar medos em vitórias de confiança. Na verdade, são os próprios alunos que agarram o desafio, não obstante o temor de enfrentar uma plateia de olhos postos neles, perscrutando todos os seus gestos. E testemunho esta atitude singular de agarrar o medo há anos, como se fosse importante desafiá-lo.

Talvez porque percebam, mesmo de forma instintiva, que ultrapassar esse nervosismo naquele auditório é o primeiro treino para ganharem voz no mundo. Quando o espetáculo termina, levam consigo muito mais do que o alívio ou os aplausos; saem de lá com a prova prática de que são capazes de enfrentar os palcos reais e exigentes que a vida lhes reserva fora da escola.

Classificações do Peddy Paper IV.

· Temas: , ,

Fiz finalmente as contas do Peddy Paper: Perdidos na Lixa IV, e o resultado é um enorme empate. Ou seja, das seis equipas participantes, cinco obtiveram exatamente a mesma pontuação - 6300 pontos - e a segunda classificada, os Pavões Tímidos, ficou-se pelos 6100 pontos por se ter esquecido de realizar uma das "missões" propostas no Goosechase.

Assim sendo, o fabuloso prémio que eu estava a pensar atribuir à equipa vencedora, com o alto patrocínio do "chinês" da Lixa, vai ser sorteado. As regras, escritas algures, previam que, em caso de empate, a equipa com a média de idades mais baixa vencesse. No entanto, confesso que não me apetece ter uma trabalheira tamanha, e a ideia do sorteio até anima mais a cerimónia de entrega de prémios, que irá acontecer na próxima quarta-feira pela manhã.

Não obstante os estranhos resultados, haverá prémios para todos, inclusivamente para a segunda classificada, sendo que cada equipa chamada ao palco terá de fazer um discurso a agradecer à organização.

Por último, para os que mais desconfiarem das minhas contas e dos resultados, ou das maroscas das outras equipas, podem reclamar para o seguinte email: naoteadiantadenada@123.pt, que a organização terá tudo em boa conta e fará justiça. Não se preocupem! De qualquer forma, fica aqui uma tabela comprovativa das submissões exigidas em cada uma das missões, o respetivo elemento da equipa que as realizou e a pontuação obtida em cada uma.