Os Jardins do Diálogo e a força da geração atual.

domingo, 28 de junho de 2026 · Temas: ,

Há dois motivos sobre os quais eu sempre tive uma enorme dificuldade de escrever: o primeiro sou eu mesmo, o segundo são as pessoas que admiro. Isto porque há sempre uma carga imensa de emoção no ato da escrita; as palavras tornam-se demasiado pensadas, ganham um peso próprio e custam a sair porque parecem carregar o peso dos nossos sentimentos. Por isso, decidi que este exercício não seria não seria um exercício solitário. Este é um artigo escrito a duas mãos, fruto de uma partilha sincera entre mim e a professora Maria, com o intuito de dar forma e voz a uma vivência comum.

O verdadeiro motivo e a grande inspiração deste texto são os jovens que constituem o GRITAH (associação de solidariedade). A palavra "jovem" assume aqui um significado imenso e transformador, que ultrapassa qualquer definição formal e que se tornou no eixo e elo de união de todo o projeto, desde os primeiros esboços até ao reflexo prático na nossa escola.




Meses de trabalho e ansiedade.

A concretização de uma iniciativa desta envergadura não surge do acaso. No dia dos Jardins do Diálogo, nós estávamos muito ansiosos, e com razão. Havíamos planeado tudo com um enorme pormenor ao longo de um caminho longo e invisível.

Para colocar o projeto de pé, realizámos reuniões online de coordenação, estruturámos os temas e envolvemos diretamente uma competente equipa de professores e alunos motivados, que partilharam a mesma dedicação. Publicitámos o evento e detalhámos exaustivamente cada aspeto logístico e pedagógico que havia para detalhar.

Por isso, para nós, que trabalhamos afincadamente no projeto durante meses, esta primeira edição e o dia da sua realização pareceram-nos, inicialmente, apenas uma consequência natural de todo esse trabalho prévio. Esse planeamento detalhado foi a estrutura segura que permitiu aos verdadeiros protagonistas assumirem o seu papel.


Os “jovens” do GRITAH.

Os elementos que deram vida a este plano são os “jovens” do GRITAH. Tomámos a decisão consciente de não particularizar nomes, pois seria injusto para com o grupo e, acima de tudo, para com os elementos que, por variados motivos, não puderam estar presentes. Afinal, o valor está no coletivo.

Quando usamos a palavra "jovens", não nos referimos propriamente a indivíduos acabados de sair da academia, sem experiência de vida. Falamos de pessoas que, fruto da sua faixa etária, da sua dinâmica e da paulatina ocupação de lugares de decisão na sociedade, consideramos a verdadeira geração atual.

Estes elementos (jovens ativistas) trazem consigo traços fascinantes. Por um lado, revelam ainda muito academismo, pois foram formatados ao longo do seu percurso para diluir as responsabilidades de uma forma extremamente democrática,  um método justo, mas que, por vezes, lhes tolhe a iniciativa individual imediata. Por outro lado, conseguem fazer algo que nós, com o tempo, vamos tendo cada vez mais dificuldade em realizar: adaptam-se com uma facilidade impressionante às situações e, recorrendo a um certo improviso maduro, desempenham a sua função com brilhantismo e com uma envolvência cativante. 

Esta capacidade é ainda mais louvável quando consideramos as suas exigências profissionais, tratando-se de quem começa agora a consolidar a sua carreira no mercado de trabalho.


O dia do evento.

Quando o dia finalmente chegou, a azáfama de pormenores de última hora envolveu-nos por completo. O ritmo frenético da manhã e a pressa em garantir que tudo corria como planeado não nos permitiram perceber, de forma imediata, o impacto real daquilo que tínhamos construído. Estávamos focados na ação, na gestão do espaço e no cumprimento dos horários.

A atividade concretizou-se nos jardins da escola, transformados em palcos de partilha. Os jovens do GRITAH integraram as mesas redondas e assumiram a condução dos debates. Foi ali, no momento em que as palavras começaram a circular livremente, que o planeamento abstrato se transformou  numa realidade vibrante e magnética.  A presença física, o olhar atento dos participantes e a dinâmica que se instalou naquele espaço exterior mostraram que a atividade tinha ganho uma vida própria, muito além dos papéis e das reuniões online.

Só conseguimos deter-nos e compreender verdadeiramente o impacto absoluto da iniciativa quando parámos para observar o ambiente em redor. O cenário superou todas as nossas expectativas. Vimos turmas inteiras de alunos a não arredar pé em torno dos nossos Jovens do GRITAH, profundamente entusiasmados com aquela dinâmica tão própria.

Havia uma espécie de proximidade e distância ao mesmo tempo entre eles; uma barreira geracional curta que permitia aos mais novos escutar e acolher, com total abertura, a visão que os convidados transmitiam sobre os temas que formavam as mesas redondas.

Foi gratificante observar os nossos alunos a esclarecer dúvidas, a pedir conselhos práticos e a procurar os nossos jovens particularmente, com a admiração sincera de quem pede um autógrafo a uma estrela. E, na verdade, eles foram as nossas estrelas. Brilharam intensamente e deixaram-nos com um orgulho tremendo por sabermos que se formaram na nossa escola, que são parte de nós e do que construímos, e que assumem com tanta dignidade a liderança da geração atual.

A Utopia que estes jovens imprimiram em cada momento foi a verdadeira pedra de toque para toda esta primeira edição. Essa visão ficou materializada no texto que preparámos e imprimimos para o evento, onde se afirmava textualmente:

“[...] , dialogar com os mais jovens, e fazê-los dialogar entre si sobre a imensidão de assuntos da sociedade, é uma urgência cívica. Não basta transmitir conhecimento, é imperativo sair da sala e criar espaços onde ele seja testado e transformado em ação. Isto porque a cidadania constrói-se na troca de argumentos e na coragem de questionar o estabelecido.”

O impacto na comunidade foi imenso. Professores, alunos, funcionários e diversos elementos da sociedade civil participaram e uniram-se nos elogios à iniciativa. Ao questionarmo-nos sobre a razão de tanto sucesso, encontrámos a resposta numa única palavra: dialogar.

Por mais absurdo que nos possa parecer no mundo contemporâneo, o diálogo transformou-se em algo raro e, simultaneamente, muito apetecível e estritamente necessário. Cremos convictamente que todos os que ali estiveram, durante aquela manhã, sentir essa verdade. Chega a ser irónico que tenhamos de promover e criar iniciativas específicas como esta para conseguir simplesmente “cultivar a palavra” e trocar ideias. No entanto, o sucesso desta edição prova que o espaço existe e que o futuro, guiado por estes jovens, tem bases sólidas para continuar a questionar, a agir e a dialogar.

Um artigo escrito a duas mãos por Pedro e Maria.

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