O solstício de Verão e as Vacas-de-Fogo.

segunda-feira, 21 de junho de 2010 · Temas: , ,

O maior dia do ano ocorre hoje, dia 21 de Junho, o dia em que Sol alcança pelas 11.28h o seu ponto mais alto no Hemisfério Norte, naquela que é a mais longa viagem (dia natural) entre o nascer e o seu ocaso (15 horas e 08 minutos).
 
O solstício de Verão é uma efeméride astronómica profundamente enraizada em inúmeras manifestações pagãs, muitas delas adoptadas e adaptadas a rituais religiosos perfeitamente diluídos nas festividades contemporâneas. Esta constatação, já aqui realçada no Geopalavras por diversas vezes, torna-se extremamente pertinente e interessante, na medida em que nos explica o verdadeiro significado de algumas das nossas festas e rituais anuais. Os costumes, hábitos e tradições não acontecem por acaso e a interpretação do ritmo cósmico, que pautava o calendário dos nossos antepassados pré-históricos continua, paradoxalmente, a marcar o nosso.
 
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Um dos bons exemplos desta profusão são as Vacas-de-Fogo, uma tradição bastante disseminada na região do Sousa, que consiste numa «espécie de caixa pirotécnica em forma de vaca, onde um homem a coloca às suas costas e percorre a avenida principal». Esta tradição, à semelhança de muitas, coloca o fogo como elemento central e purificador. O fogo como elemento ritual, quer na sua versão cristianizada (as velas acesas - luz da salvação de Cristo), quer na sua versão mais pagã (as fogueiras), cumprem um duplo sentido: ora como purificador, pois destrói o que é velho, ora como fecundador, pois permite um renascimento das cinzas resultantes (Javier Arévalo).
 
SPAIN SAN FERMIN 2012
 
Segundo J. C. Bermejo Barrera «La purificación se relaciona a la vez con la inmortalidad, pues ambas derivan del fuego del hogar que sirve para eliminar las manchas rituales y para cocer el caldero con agua (lebes), através del que se trata de conseguir la inmortalidad en algunos mitos griegos».
 
O Toro de Fuego (Vacas-de-Fogo em Portugal) segundo Alberto de Jesús, têm a sua origem nas touradas nocturnas, realizadas em Creta por gregos e romanos, e também nas conquistas e batalhas mediterrânicas feitas por celtas, romanos e cartagineses. Nestas, o touro (semibravo e castrado) e o boi eram utilizados para transporte e alimentação e cumpriam ainda uma importante função estratégica e militar. Aos chifres dos animais os guerreiros prendiam lenha e panos embebidos em gordura, aos quais ateavam fogo. Depois, os animais eram conduzidos em manadas até às cercanias do acampamento inimigo onde, com o alastrar do fogo, ficavam enfurecidos e investiam com vigor contra o inimigo.
 
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Na Península Ibérica, esta táctica militar evoluiu para a tradição do Toro de Fuego. Em 1627, em Espanha, nas «fiestas patronales de Santa Ana» tourearam «Diego Sola, Jacinto Caparroso, Juan Marco y Jerónimo Citor, por cuya habilidad cobraron 8 ducados» e, nesse mesmo ano, José de Sola foi o autor do primeiro e verdadeiro Toro de Fuego que, ainda hoje constitui um elemento imprescindível nas festas populares da região Valenciana.

Muito embora hoje, e na maior parte das localidades espanholas, esta tradição não lide com verdadeiros touros, o Toro  fictício e pirotécnico, encabeçado por um homem que se faz desfilar ao longo de uma avenida apinhada de gente, cumpre um ritual igualmente primordial: o ritual da purificação e da catarse pelo fogo.
 
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O solstício, o fogo e a entrada do Verão constituem assim elementos de um único e cíclico processo de renovação, onde queimar o velho é destruir os maus espíritos, que possibilitam a abertura da válvula de escape para os problemas e tensões sociais quotidianas.
 

Fontes:
- J. C. Bermejo Barrera – “Mitologia y mitos de la Hispania prerromana I”, Ed, Aakl, Madrid, 1986, pp. 162-170.
- Wikipédia.

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