Viagem à volta do mundo na Rua do Cimo de Vila.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009 · Temas:

Na tasca de tecto decorado com uma vintena de presuntos, todos se calam para deixar o empregado falar. "-Esta rua é uma enciclopédia do Porto", anuncia, com evidente orgulho, despertando a atenção daqueles cujos copos tintos, elevavam o espírito para outros lugares. "-Olhe que aqui vinha gente de alto nível. A Amália Rodrigues, sempre que vinha ao Porto, estava aqui batidinha.», refere, recordando tempos passados, anteriores ao pote multicultural em que se transformou a Rua do Cimo de Vila, no centro histórico do Porto."-Agora é diferente. Vieram os chineses, estragar o negócio às pessoas, e, atrás deles, os paquistaneses, os indianos, os argelinos, os marroquinos, os africanos e os outros todos".


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 Encravada entre o Teatro Nacional de S. João e a Sé do Porto, a Rua do Cimo de Vila saltou para os jornais à boleia da detenção do argelino Samir Bouça, que ali manteve uma barbearia, antes de ser detido pela PJ, por suspeitas de ligações ao terrorismo internacional. Nessa altura, apareceram fotógrafos e jornalistas cheios de pontos de interrogação na ponta das esferográficas e depois... e depois nada. Os portuenses, daqueles com sotaque a sério, voltaram a conviver em anónima harmonia com imigrantes vindos do Paquistão, do Bangladesh, da China (agora menos), de Cabo Verde, da Argélia, da Guiné-Bissau... É pegar num mapa-mundo e escolher uma origem para a mistura de raças que por estes dias se cruzam naquelas poucas centenas de metros.

Entra-se por cima, pela Praça da Batalha, e esbarra-se logo no número 2, cujas portas se abrem para a Casa Louro, a tal tasca predilecta da fadista. "-Esta rua é uma enciclopédia", retoma Joaquim Nogueira, o empregado de serviço, "-Porque já teve de tudo: hotéis, tascas, restaurantes, comércio de categoria, prostituição, droga, tudo". E ele sabe do que fala. Começou a servir copos ao balcão com 11 anos e já vai com 47 de vida. "-Vim trabalhar para este senhor aqui", diz, apontando uma fotografia em que o dono de uma gigantesca barriga posa, senhorial, junto a um porco.

Na rua, situa-se a Pensão Mondariz. "Foi fundada por galegos e comia-se ali muito bem", recorda o historiador Hélder Pacheco. É ele quem abre o calhamaço histórico. "É uma das ruas mais antigas da cidade e uma das mais emblemáticas da cidade medieval. Era por ali que se saía da cidade para Trás-os-Montes. Durante a Idade Média, era uma rua da sólida burguesia mercantil portuense." Não por acaso, o alcaide-mor do Porto, João Rodrigues de Sá, edifica ali o seu palácio, mais tarde comprado pela marquesa de Abrantes. "A partir do século XIX, aquilo foi-se proletarizando e abriu-se aos artesãos, pequenos comerciantes e operários", completa o historiador.

Desse tempo, restam alguns comerciantes para amostra. A Casa Crocodilo, com o dito animal suspenso do tecto em versão embalsamada, continua a assegurar o restauro de todos os tipos de cabedais. Na loja do senhor Delfim Almeida, reparam-se máquinas de costura antigas. Antigas Singer, em ferro preto, há várias a reluzir como novas. "O que me safa o negócio é o pessoal das aldeias que traz as máquinas para arranjar", explica Delfim, limpando as mãos besuntadas de óleo às calças.

No número 129, há uma secular placa vermelha e branca a anunciar brinquedos, bijutarias e novidades, mas espreita-se pela montra e vêem-se chineses com a habitual parafernália de rádios de pilhas, relógios e calculadoras. Logo a seguir, uma loja que vende pedras semipreciosas ao quilo. Ágatas, ametistas, esmeraldas. Directamente vindas do Bangladesh, segundo o proprietário, e prontinhas a incrustar em anéis, colares e pulseiras. "São difíceis de encontrar", confirma uma cliente, sem parar de mergulhar os dedos

Depois de anos a estudar o tecido social do centro histórico do Porto, a antropóloga Paula Mota Santos confirma que "o que torna a cidade interessante é que não existem os enclaves étnicos que se vêem em cidades como Londres". Claro que o fenómeno da imigração nas duas cidades não é numericamente comparável. Mas "o que se vê em Cimo de Vila é uma convivência pacífica de muitas diferentes culturas". Mais tarde ver-se-á, porque "há coisas que só o tempo pode potenciar".


Fonte: - Adaptado de um artigo de um artigo do Jornal Público, escrito pela jornalista Natália Faria.

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